PETER
MURPHY
Via
Funchal, São Paulo/SP, 14/02/2009
E
ele veio: um dos ícones do estereótipo masculino
do gótico fez, finalmente, seu show em São Paulo.
Peter Murphy não era o cérebro do Bauhaus, mas
foi, com certeza, sua cara. E o que teve a carreira solo que
mais se aproximou do som de sua banda original, a banda que
quase todos especialistas não titubeiam em dizer: eles
moldaram o som gótico. Óbvio que eles mesmos (Bauhaus)
não concordam com isso, pois essa rotulação
limita seu campo de trabalho, mas tudo bem. Ninguém liga
mesmo para o que eles pensam. A gente gosta e pronto.
A banda é enxuta: baixo-guitarra-bateria, com incursões
esparsas de um teclado, em uma ou outra canção.
Isso mostra que Peter não renega tanto assim seu passado.
Os arranjos feitos para o instrumental básico de uma
banda provam isso. Logo que entrou, aos poucos, fez o público
delirar. Público, aliás, que não lotou
o lugar, mas fez-se presente ovacionando praticamente todas
as músicas executadas. Em algumas músicas ameaçou
cantar junto, em outras levou a ameaça a efeito, fazendo
Peter virar o microfone para o povo cantar junto ou em seu lugar.
A idade avançada mostra sua face cruel em Peter: descontada
a barriguinha e a calvície (até menores que o
normal para a idade, diga-se), a voz de Peter parecia precisar
de um aquecimento. Nas primeiras músicas, percebia-se
que os agudos estavam no limite do desafino e da falha, mesmo.
Mas durante o show, ele mostrou que ainda tem garganta: ia do
grave ao agudo com facilidade, chegando a reproduzir o final
apoteótico de “Bela Lugosi’s Dead”
(que ele inseriu dentro de outra música) de maneira fiel
à original.
No meio do show, Peter disse estar exausto, mas agradeceu a
acolhida da platéia. Disse estar em turnê de retrospectiva
de sua carreira, mas que pretende voltar em breve para lançar
seu mais novo álbum, que está sendo finalizado.
Além disso, ainda brincou com a platéia, com os
músicos, cantou à capella aquela parte vocal estranha
de “Bohemian Rhapsody” (do Queen), fez performance
numa escada postada atrás do palco (no cover de Nine
Inch Nails), dançou, pulou ... enfim, nada que lembre
o soturno som que saiu de sua privilegiada garganta.
O set list dividiu opiniões. Se alguém informou
para Peter quais suas músicas mais conhecidas aqui, esse
alguém provavelmente nunca pisou numa pista undergound
tupiniquim, pois faltaram algumas músicas que sempre
foram hits certos nessas pistas, como “Indigo Eyes”
e “All Night Long” ou até mesmo a cover de
Pere Ubu, “Final Solution”. No entanto, ele compensou
com pelo menos outras duas surpresas: as covers de “Transmission”
(sim, do Joy Division!) e “Lust for Life”, de Iggy
Pop, que elemendou depois de “Cut’s You Up”.
E Bauhaus esteve presente na faixa de abertura do show, do novo
álbum, além de “She’s In Parties”,
no meio do show.
Enfim, para quem foi, valeu a pena. Ficou aquela sensação
de que poderia ter sido melhor, mas que ele se esforçou
para agradar sua platéia. A empatia foi recíproca,
o que nos faz esperar pelo próximo show. Ainda que ele
tenha informado a intenção de trazer o show de
lançamento de seu novo álbum aqui, bem que ele
poderia reunir seus amigos de Bauhaus e trazer esse show pra
cá. Já tentaram uma vez, mas eles acabaram de
novo antes de vir para cá. Mas não custa sonhar
mais um pouco ...
Jorge Vitzac
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